Duas Marias no Evangelho
O que podemos aprender com o exemplo de cada uma delas
Muitas foram as mulheres que, ao longo da história, se dedicaram anonimamente a vivenciar o Evangelho do Cristo. Porém, vamos nos voltar ao tempo dos primeiros anos da era cristã.
O primeiro exemplo de dedicação que podemos tomar, como fiel cumpridora dos seus compromissos materiais, além de serva dos desígnios divinos, é a mãe do Mestre Jesus. Sem a cortina do dogmatismo religioso e sem a fantasia do culto à personalidade, temos que nos curvar à evolução do Espírito de Maria, diante de sua envergadura moral, de uma vida dedicada ao cumprimento dos seus deveres de esposa e mãe (papel feminino da época) e consagrada ao próximo, principalmente após a crucificação.
O maior legado de Maria, mãe de Jesus, está no exemplo sublime de amor incondicional, humildade, fé e abnegação, virtudes que marcaram sua existência e fizeram dela uma referência de maternidade e elevação moral para a humanidade. Ao acolher a missão de ser mãe de Jesus, Maria demonstrou confiança na Providência Divina, dedicação e renúncia aos interesses pessoais. Mesmo diante das incompreensões, dificuldades e do sofrimento extremo ao presenciar a crucificação de seu filho, permaneceu fiel ao amor que sempre cultivou.
Para tantas mães que, com muita dor e lágrimas, mal suportam ver os sofrimentos dos filhos e as ausências em decorrência de desencarnes, ao nosso ver prematuros, Maria exemplifica o bem sofrer, sem revolta, dedicando-se aos abandonados no mundo. Reforça a necessidade da caridade, do exercício da compaixão e da benevolência. Como mãe, assumiu o papel de acolhimento aos seguidores de Jesus, como amparo moral em suas aflições, vendo neles seus filhos bem-amados, atendendo ao convite do Cristo: “Mulher, eis aí o teu filho” (João, 19:26-27).
Não podemos esquecer da figura marcante de Maria Madalena, confundida rotineiramente com a mulher adúltera, colocada diante do Cristo para apedrejamento. Maria Madalena, que, segundo a tradição, se perdia em experiências materiais e em uma vida sem espiritualização, busca no Mestre a água viva, significação para a existência.
Madalena é exemplo de transformação moral, arrependimento sincero e renovação espiritual por meio do amor. Sua trajetória nos ensina que ninguém está condenado a permanecer prisioneiro do próprio passado e que a verdadeira transformação nasce do despertar da consciência, do esforço pessoal e da prática do amor. Após a morte do Mestre, Madalena, sedenta de sua vibração amorosa, busca o sepulcro e o encontra vazio. Ainda, dentre todos os seguidores, é escolhida como a primeira a testemunhar a presença de Jesus ressuscitado, convidando-nos a refletir sobre sua importância na divulgação do Evangelho. E, como aprendiz que verdadeiramente se entrega à vivência dos ensinos recebidos, dedica-se aos leprosos após o reencontro com o Mestre ressuscitado, conforme nos relata a literatura espírita.
Maria Madalena representa a esperança de regeneração que se oferece a todos os espíritos, lembrando-nos de que a grandeza espiritual não está na ausência de erros, mas na disposição sincera de aprender, reparar, perdoar e perseverar no caminho do bem.
Nas duas figuras, tão antagônicas na tradição cristã, uma vista como santa e pura desde o primeiro momento, outra julgada como uma das mais indignas entre as mulheres, a ação do Evangelho do Cristo mostra o poder da renovação e da prática do amor.
A nós, fica o convite à reflexão: quantas vezes nos falta a resignação de Maria diante das provas da vida ou a coragem de Madalena para reconhecer nossas imperfeições e transformar nossos caminhos? Em ambas, o Cristo nos ensina que o amor, seja na renúncia ou na renovação, é sempre o caminho para nossa evolução espiritual.