O QUE É SER ESPÍRITA?
“Espíritas! amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo.”
(O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VI — O Cristo Consolador, item 5, O Espírito de Verdade, Paris, 1860.)
Essa orientação do Espírito de Verdade sintetiza a proposta da Doutrina Espírita. Nela encontramos dois movimentos que se completam: amar, como esforço de transformação moral, e instruir-se, como exercício permanente de conhecimento, reflexão e compreensão das leis que regem a vida.
O primeiro desses caminhos nos conduz diretamente a Jesus.
Em O Livro dos Espíritos, com profunda perspicácia, Allan Kardec pergunta: “Qual o tipo mais perfeito que Deus já ofereceu ao homem para lhe servir de guia e modelo?” A resposta é direta: “Jesus.” (KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 625.) Acrescenta-se que Jesus representa para a humanidade o modelo da perfeição moral a que podemos aspirar na Terra e que sua doutrina constitui a expressão mais pura da lei divina.
Assim, quando o Espírito de Verdade nos conclama “amai-vos”, não nos remete a um sentimento abstrato ou meramente contemplativo. Remete-nos à vivência da moral ensinada e exemplificada por Jesus.
E o próprio Livro dos Espíritos esclarece de forma muito concreta o que isso significa. Na questão 886, Kardec pergunta: “Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, como a entendia Jesus?” Os Espíritos respondem: “Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas.” (KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 886.)
A definição amplia profundamente o significado da caridade. Ela não se restringe à ajuda material. Kardec observa que, segundo Jesus, a caridade alcança todas as relações que mantemos com os nossos semelhantes.
Ser caridoso, portanto, é também acolher, compreender, ouvir, respeitar, perdoar e reconhecer no outro um companheiro de caminhada, tão imperfeito quanto nós mesmos. É oferecer auxílio material quando necessário, mas igualmente uma presença que ampare ou a indulgência que gostaríamos que tivessem conosco.
Mas a orientação não termina aí. Imediatamente acrescenta: “instruí-vos”. Também nesse ponto encontramos uma característica essencial da Doutrina Espírita. O Espiritismo não propõe uma fé fundada simplesmente na aceitação. Desde suas bases, convida ao estudo, à observação, à análise e ao raciocínio.
No preâmbulo de O que é o Espiritismo, Allan Kardec o define como “ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica”. Como ciência prática, ocupa-se das relações entre os homens e os Espíritos; como filosofia, examina as consequências morais decorrentes dessas relações.
Essa definição ajuda a compreender a amplitude do “instruí-vos”. Há uma dimensão científica, voltada à observação e ao exame dos fenômenos e das relações entre o mundo corporal e o mundo espiritual. Há uma dimensão filosófica, que nos convida a refletir sobre questões fundamentais da existência: quem somos, de onde viemos, para onde vamos, qual o sentido da vida, da liberdade, da responsabilidade, do sofrimento e do progresso.
E dessas investigações decorrem consequências morais, porque conhecer a realidade espiritual somente encontra pleno sentido quando esse conhecimento repercute na maneira como vivemos e nos relacionamos.
Por isso, instruir-se não significa apenas acumular informações. Significa compreender para melhor viver.
Essa postura está intimamente vinculada ao princípio da fé raciocinada. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec afirma que a fé necessita de uma base fundada na compreensão e ensina que: “Fé inabalável só o é a que pode encarar de frente a razão em todas as épocas da humanidade.” (KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XIX — A fé transporta montanhas, item 7.)
A fé espírita, portanto, não pede que abandonemos a razão. Ao contrário: convida-nos a utilizá-la. Estudar, perguntar, comparar, observar, refletir e compreender fazem parte do próprio caminho de fortalecimento da convicção. Kardec assinala que a fé raciocinada se apoia nos fatos e na lógica e que a certeza nasce da compreensão.
Temos, então, dois grandes movimentos de educação do Espírito.
“Amai-vos” educa o sentimento. “Instruí-vos” educa a inteligência.
E a proposta espírita convida-nos a fazer ambos caminharem juntos.
Conhecimento sem amor pode tornar-se estéril. Amor sem esclarecimento pode perder direção. Quando sentimento e razão se auxiliam mutuamente, começamos a compreender que o estudo doutrinário não constitui um fim em si mesmo: ele deve nos ajudar a viver melhor, servir melhor e amar melhor.
Aprender para compreender. Compreender para transformar-se. E transformar-se para servir ao próximo.
Porque, se Jesus é o guia e modelo, e se a caridade que Ele ensinou se traduz em benevolência, indulgência e perdão, todo conhecimento verdadeiramente espírita deve, ao final, ajudar-nos a sermos um pouco mais fraternos.
Referências
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Terceira — Das Leis Morais. Capítulo I — Da lei divina ou natural, questão 625; Capítulo XI — Da lei de justiça, de amor e de caridade, questão 886.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo VI — O Cristo Consolador, item 5; Capítulo XIX — A fé transporta montanhas, item 7.
KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. Preâmbulo.